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Há conceitos que pertencem à história da Psicanálise e há conceitos que modificam a maneira como escutamos um paciente.
Hilflosigkeit, frequentemente traduzido como desamparo, pertence às duas categorias.
Reduzi-lo à ideia de “sentir-se sozinho” empobrece sua potência teórica. O desamparo freudiano aponta inicialmente para uma condição constitutiva: o ser humano chega ao mundo incapaz de realizar sozinho as ações necessárias à satisfação de suas necessidades.
A vida começa, portanto, sob dependência.
E isso possui consequências para a constituição psíquica e para a maneira como posteriormente experimentaremos presença, ausência, perda e vínculo.
Da necessidade corporal ao encontro com o outro
Nos primeiros desenvolvimentos freudianos, especialmente no Projeto para uma Psicologia Científica, encontramos uma formulação decisiva: diante de determinadas tensões, o organismo infantil não consegue produzir sozinho a ação específica capaz de promover satisfação.
É necessária uma intervenção externa.
Alguém precisa chegar.
Essa formulação parece simples, mas contém uma questão clínica profunda.
A experiência de satisfação não envolve apenas a redução de uma tensão. Ela acontece mediada pela presença de outro ser humano.
O outro aparece, desde muito cedo, associado à possibilidade de alívio.
O vínculo não é, portanto, um acessório acrescentado posteriormente a um indivíduo já constituído.
A dependência participa das condições iniciais da própria constituição.
Desamparo não é sinônimo de abandono
Essa distinção é indispensável.
Desamparo é uma condição constitutiva. Abandono é uma experiência possível dentro das relações.
Confundir os dois conceitos leva facilmente a formulações deterministas.
Todo bebê é dependente.
Nem todo bebê é abandonado.
Nem toda experiência de ausência é traumática.
Nem todo paciente com medo de perda possui uma história factual de abandono.
O raciocínio clínico precisa resistir à tentação de converter um conceito metapsicológico em biografia automática.
O que acontece quando a perda se torna possível?
Mais tarde, a questão do desamparo reaparece articulada à angústia.
A ausência daquele de quem dependemos pode adquirir valor de perigo porque implica a possibilidade de ficarmos novamente expostos a uma situação que não conseguimos dominar.
Essa perspectiva ajuda a compreender por que determinadas separações possuem intensidades tão diferentes entre pacientes.
O acontecimento manifesto pode ser semelhante.
A experiência psíquica não é.
Para um sujeito, o afastamento do parceiro é uma perda dolorosa.
Para outro, pode ser vivido como ameaça à própria continuidade emocional.
A pergunta clínica deixa então de ser apenas:
“Por que ele teme tanto ser abandonado?”
e passa a incluir:
“O que a perda deste objeto representa psiquicamente para este sujeito?”
Do desamparo à clínica do vínculo
Essa diferença modifica a escuta.
Pacientes organizados em torno de intensa ameaça de abandono podem apresentar comportamentos que facilmente recebem descrições moralizantes:
“carente”;
“controlador”;
“dependente”;
“dramático”;
“exigente”.
Essas palavras descrevem comportamentos, mas dizem pouco sobre sua função psíquica.
A escuta analítica pergunta o que aquela exigência tenta impedir.
O que acontece internamente quando o outro não responde?
Que representação possui a ausência?
Que angústia emerge quando não existe confirmação de permanência?
A necessidade intensa do objeto pode estar tentando regular uma experiência de desamparo que o sujeito ainda não consegue suficientemente representar ou sustentar.
Uma vinheta clínica
Considere uma paciente adulta que inicia análise depois de sucessivas relações amorosas instáveis.
Nas primeiras semanas, mostra-se colaborativa e interessada. Com o avanço do tratamento, começa a demonstrar intensa sensibilidade às mudanças do enquadre.
Um feriado interrompe uma sessão.
Ela responde:
“Tudo bem, claro.”
Na sessão seguinte, porém, chega distante.
Diz que talvez a análise não esteja funcionando e cogita interromper o tratamento.
Uma leitura exclusivamente manifesta poderia entender a reação como resistência ao processo.
Mas há outra possibilidade de investigação.
O intervalo pode ter adquirido significado de retirada do objeto.
A paciente não diz:
“Temo que você me abandone.”
Ela produz uma ruptura antes de correr o risco de experimentá-la passivamente.
Nesse caso, abandonar a análise pode constituir uma tentativa de não ser abandonada por ela.
Transferência: quando a permanência do analista ganha significado
É nesse ponto que desamparo e transferência começam a se aproximar clinicamente.
O analista não é apenas alguém que interpreta conteúdos.
Sua presença, seus intervalos, suas férias, seu silêncio e os limites do enquadre podem adquirir significados específicos dentro da organização transferencial do paciente.
Isso não significa transformar o analista em cuidador reparador nem eliminar frustrações para evitar qualquer experiência de ausência.
Significa reconhecer que o enquadre também é vivido.
Uma interpretação tecnicamente correta, realizada sem leitura do momento transferencial, pode ser experimentada como nova retirada justamente quando o paciente se encontra diante de intensa ameaça de perda.
Um erro clínico frequente: interpretar dependência antes de compreendê-la
Diante de pacientes muito dependentes, o profissional pode sentir urgência em promover autonomia.
Essa urgência merece ser examinada.
Autonomia não se produz simplesmente retirando dependência.
Em determinados tratamentos, a tentativa precoce de mostrar ao paciente que ele “precisa aprender a ficar sozinho” pode repetir exatamente a experiência que organiza seu sofrimento: precisar e encontrar indisponibilidade.
Isso não significa gratificar ilimitadamente demandas.
O desafio técnico é mais complexo:
como sustentar vínculo sem alimentar fusão?
Como manter limites sem transformar limite em abandono?
Como interpretar dependência sem humilhá-la?
É nesse território que o conceito deixa de ser apenas teoria e começa a formar raciocínio clínico.
Desamparo não explica tudo
Outro risco é fazer do abandono uma teoria totalizante.
Nem toda dependência decorre de abandono.
Nem toda angústia de separação deriva de trauma precoce.
Nem toda ruptura terapêutica representa reedição de uma experiência infantil.
O conceito deve ampliar a escuta, não substituí-la.
A função da teoria é produzir perguntas melhores.
Quando passa a fornecer respostas antes que o paciente fale, deixa de orientar a clínica e começa a silenciá-la.
Referências
FREUD, Sigmund. Projeto para uma Psicologia Científica.
FREUD, Sigmund. Inibições, Sintomas e Ansiedade.
FREUD, Sigmund. Além do Princípio do Prazer.