Por que repetimos relações que nos fazem sofrer?

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“Eu sabia que terminaria assim.”

A frase aparece depois de mais uma relação marcada por distância, rejeição, indisponibilidade ou sofrimento.

Muda a pessoa. Muda a história. Mudam as circunstâncias.

Mas alguma coisa parece estranhamente familiar.

Alguém escolhe repetidamente parceiros indisponíveis. Outra pessoa termina suas relações justamente quando começa a sentir intimidade. Há quem suporte sucessivas rejeições esperando finalmente ser escolhido.

Depois vem a pergunta:

“Se isso me faz sofrer, por que continuo repetindo?”

A Psicanálise fez dessa pergunta uma questão fundamental.

Nem sempre repetimos aquilo que queremos

É relativamente fácil compreender por que buscamos experiências prazerosas.

Mais difícil é explicar por que voltamos a situações que já sabemos que produzem sofrimento.

Sigmund Freud percebeu que determinados pacientes não apenas recordavam experiências difíceis: de alguma maneira, reproduziam aspectos delas.

Aquilo que não aparecia como lembrança podia retornar como modo de se relacionar.

Essa observação ajudaria Freud a desenvolver o conceito de compulsão à repetição.

Não significa que alguém conscientemente escolha sofrer.

Significa que parte de nossa vida psíquica não obedece simplesmente àquilo que racionalmente sabemos ser melhor para nós.

“Mas eu já entendi tudo isso”

Talvez você já tenha percebido seu padrão.

Sabe que se envolve com pessoas emocionalmente indisponíveis.

Sabe que tenta salvar parceiros.

Sabe que aceita menos do que gostaria.

Sabe que foge quando alguém se aproxima demais.

E mesmo assim acontece novamente.

Isso ocorre porque reconhecer intelectualmente um padrão não é necessariamente suficiente para transformá-lo.

Podemos saber uma coisa e, ao mesmo tempo, continuar emocionalmente organizados por outra.

O conhecido pode parecer estranhamente familiar

Desde cedo construímos expectativas sobre proximidade, cuidado, ausência, conflito, amor e reconhecimento.

Essas experiências não produzem um roteiro rígido que determina nosso futuro.

Mas podem participar daquilo que posteriormente reconhecemos como familiar.

Às vezes, o familiar não é aquilo que nos faz bem.

É apenas aquilo que conhecemos profundamente.

Uma pessoa que precisou lutar constantemente por atenção pode, na vida adulta, sentir enorme intensidade diante de alguém cuja presença também precisa ser conquistada.

Outra, acostumada a relações imprevisíveis, pode experimentar tranquilidade como falta de paixão.

Isso não acontece porque deseja sofrer.

Pode acontecer porque determinadas formas de vínculo carregam uma familiaridade emocional difícil de perceber conscientemente.

A esperança escondida dentro da repetição

Existe ainda uma dimensão especialmente dolorosa.

Às vezes repetimos não apenas porque algo foi vivido, mas porque alguma coisa continua esperando outro desfecho.

“Desta vez ele vai me escolher.”

“Desta vez conseguirei fazer alguém ficar.”

“Desta vez serei suficiente.”

“Desta vez não serei deixado.”

Uma nova relação pode então receber uma tarefa que nunca lhe foi explicitamente dada: reparar uma história anterior.

O parceiro atual deixa de ser apenas ele mesmo e passa, sem saber, a ocupar um lugar muito maior.

Quando isso acontece, a relação pode carregar expectativas impossíveis de cumprir.

Repetição não significa destino

Descobrir que existe repetição pode provocar culpa:

“Então o problema sou eu?”

Essa conclusão seria simplista.

As relações são construídas entre pessoas reais, e cada uma possui responsabilidade pelo modo como participa delas.

Reconhecer um padrão não significa responsabilizar alguém por tudo que sofreu.

Significa recuperar uma possibilidade:

se existe algo que se repete, talvez seja possível começar a compreendê-lo.

Como interromper um padrão?

Não existe um botão para desligar uma repetição inconsciente.

Dizer “agora vou escolher diferente” pode ser importante, mas frequentemente não basta.

A investigação começa quando deixamos de perguntar apenas:

“Por que sempre encontro pessoas assim?”

e conseguimos acrescentar:

“O que acontece comigo dentro dessas relações?”

“O que me prende quando já estou sofrendo?”

“O que temo perder se eu for embora?”

“O que sinto quando alguém realmente está disponível?”

“Que lugar preciso ocupar para me sentir amado?”

Essas perguntas deslocam a repetição do terreno da culpa para o terreno da compreensão.

Quando a repetição entra na análise

Há ainda algo particularmente importante na Psicanálise: nossos modos de vínculo podem aparecer também na relação terapêutica.

O medo de decepcionar.

A necessidade de ser especial.

A expectativa de rejeição.

A vontade repentina de abandonar o processo quando a relação começa a importar.

Aquilo que acontece “lá fora” pode, em determinadas condições, surgir também dentro da análise.

E justamente porque aparece em uma relação onde pode ser observado, pensado e colocado em palavras, torna-se possível compreender aspectos que antes eram apenas vividos.

Não se trata de apagar o passado.

Trata-se de impedir que ele precise ser continuamente encenado no presente.

Referências

FREUD, Sigmund. Recordar, Repetir e Elaborar.

FREUD, Sigmund. Além do Princípio do Prazer.

FREUD, Sigmund. A Dinâmica da Transferência.

Alguns sofrimentos não começam na relação atual.

Medos de abandono, rejeição, dependência afetiva e padrões que se repetem podem carregar uma história emocional que ainda precisa ser compreendida. No Núcleo do Vínculo e Pertencimento, o trabalho clínico oferece um espaço para compreender como você aprendeu a amar, se proteger, se vincular e lidar com a possibilidade da perda.